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Barracos em expansão

O municí­pio do Rio terá em 2010 cerca de 1,3 milhão de moradores de favelas, 210 mil a mais do que em 2000. Isso corresponde a quase quatro Rocinhas - onde moram 56 mil pessoas, segundo o IBGE - ou a um municí­pio do porte de Nova Friburgo. A projeção é do Instituto de Estudos de Trabalho e Sociedade (Iets) e foi feita com base numa taxa constante de crescimento anual, calculada a partir dos dados dos censos de 1991 e 2000. Ainda de acordo com o estudo, os moradores de favelas representarão 21,1% da população total em 2010. Hoje, eles são 18,9%.

- Se não quisermos favelizar ainda mais o Rio, precisamos estruturar o mercado imobiliário voltado para a baixa renda - diz o economista André Urani, presidente do Iets.

Os censos mostram que, nos últimos 20 anos, houve uma explosão demográfica nas favelas do Rio: o número de moradores nessas áreas - classificadas pelo IBGE como aglomerados subnormais - passou de 637.518 em 1980 para 1.092.476 em 2000, o que significa um aumento de 71,3%. O fenômeno é tão acelerado que, segundo o Instituto Pereira Passos (IPP), entre 1991 e 2000 a população das favelas cresceu seis vezes mais que a das áreas formais. A taxa é maior do que a média do paí­s, onde as comunidades se expandiram num ritmo quatro vezes maior que o do asfalto.

As projeções do Iets mostram que, em termos de bens de consumo, favela e asfalto ficarão mais parecidos em 2010. Os percentuais de domicí­lios com telefone fixo serão de 78,6% e 80,1%, respectivamente. Na escolaridade, o abismo permanecerá: as pessoas com 25 anos ou mais nas favelas terão 6,6 anos de estudo e as do asfalto, dez. O analfabetismo também deverá diminuir nas favelas, mas ainda será um fator de segregação. Em 2010, as favelas terão 6,1% de analfabetos (com 15 anos ou mais). No asfalto, esse percentual será de 1,8% .

- Os números chamam a atenção ainda para outro fato: apesar do aumento da renda média per capita, a disparidade entre favela e não-favela continua crescendo - diz Urani.



População cresceu mais na Zona Oeste

Para fazer as projeções, o Iets levou em conta médias aritméticas anuais (mais conservadoras que as geométricas) a partir dos números dos censos de 1991 e 2000. Por esse cálculo, a taxa anual de crescimento da população foi de 1,9% nas favelas e de 0,4% no asfalto. Já o aumento do número de domicí­lios foi de 3,9% e de 1,4%, respectivamente.

Um estudo do IPP mostra que o crescimento da população das favelas do Rio na última década não foi homogêneo. Em áreas centrais, como São Cristóvão e Santa Teresa, houve redução do número de moradores.

O maior aumento ocorreu na Zona Oeste, especialmente na írea de Planejamento 4 (Jacarepaguá, Barra e Cidade de Deus), onde a população de favelas dobrou de 1991 a 2000, passando de 72.182 para 144.394. Favelas como Rio das Pedras, em Jacarepaguá, e Morro do Banco, no Itanhangá, não param de crescer.

De acordo com o IPP, a população de favelas em Jacarepaguá cresceu 7,5% ao ano e, na Barra, 10%. Mantidas essas taxas, assinala a pesquisa, "Jacarepaguá será uma região majoritariamente favelizada em 2024".

Uma vista aérea da Favela Rio das Pedras, a maior da região, impressiona: o conjunto de casas parece avançar em direção à Lagoa de Jacarepaguá. Pelos dados oficiais, são cerca de 26 mil habitantes, mas a associação de moradores diz que esse número pode chegar a 90 mil.

A comunidade é formada basicamente por nordestinos, como a pernambucana Maria José dos Santos, de 54 anos, que veio para o Rio há 30. No iní­cio, morou num barraco de madeira, mas hoje tem uma casa modesta de dois andares e um terraço, onde costuma reunir os filhos e os netos para uma feijoada.

A expressão serena de Maria José esconde uma vida de sacrifí­cios. Ela teve cinco filhos. Um deles foi assassinado. Outro morreu num acidente de trânsito na Barra. Analfabeta, trabalhando como diarista na Barra, ela não se arrepende de um dia ter deixado a terra natal:

- Volto nada. Não quero carregar lenha na cabeça. Já sofri muito no Norte (Nordeste). Aqui, com todas as dificuldades, nunca faltou trabalho.

Para o diretor de Informações Geográficas do IPP, Sergio Besserman, o aumento das favelas em Jacarepaguá, Barra e em outros bairros da Zona Oeste acompanha o crescimento das áreas formais:

- É a dinâmica da cidade. As pessoas, faveladas ou não, vão em busca de trabalho e de renda. É para a Zona Oeste que o Rio está crescendo.

Mas por que as favelas crescem tanto? Um estudo do IPP com base nos censos de 1991 e 2000 indica que a taxa de fecundidade - maior nas favelas do que no asfalto - foi o principal fator de expansão na última década. A segunda causa foram as migrações, tanto de outros estados quanto de municí­pios fluminenses.

- O número de migrantes equivale ao dobro do de moradores que empobreceram e saí­ram de bairros do Rio para favelas - diz Besserman.

Outra pesquisa encomendada pelo IPP à Escola Nacional de Ciências Estatí­sticas do IBGE estima que a população da Rocinha passará de 57 mil, em 2001, para 87 mil, em 2020. O crescimento do Complexo da Maré será menor: de 115 mil para 142 mil. O Jacarezinho e o Complexo do Alemão deverão perder moradores.

Entre os municí­pios do estado, Rio das Ostras aparecia em 2000 com o maior percentual de moradores de favelas (40%), segundo o Atlas de Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). A prefeitura, no entanto, contesta o levantamento, feito com base em números do IBGE.

- Esses dados não refletem a realidade. Cerca de 80% dos terrenos de Rio das Ostras não são legalizados. E a cidade não tem redes de água ou esgoto. Mas nessa situação existem casas que custam até R$ 400 mil.

Fonte: O Globo, 16 de maio de 2004.

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