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48º OsteRio

Osteria dell’Angolo

A Agência Rio Negócios

O assunto era negócios e a promoção deles no Rio de Janeiro, mas o que se falou mais nessa noite foi de educação-e o gargalo que representa.

O investimento que vai acontecer no Brasil está concentrado no Rio de Janeiro

"É difícil acreditar na velocidade com que as coisas estão acontecendo," disse Olavo Monteiro de Carvalho, abrindo o debate. Ele lembrou que há apenas quatro anos, a Associação Comercial, que ele então presidia, participou de uma campanha que conseguiu o reconhecimento internacional do Cristo Redentor como uma das sete maravilhas do mundo. Depois é que vieram a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

Marcello Haddad prosseguiu com a apresentação da Agência Rio Negócios, explicando que depois de percorrer três cidades que já sediaram Jogos Olímpicos, o prefeito Eduardo Paes criou em maio de 2010 uma agência de fomento de investimento, semelhante à Think London, também uma parceria pública-privada.

A meta da parceria entre a Associação Comercial do Rio de Janeiro e a prefeitura é buscar investimentos e empregos. "Nós somos o canal de vendas da cidade," disse Haddad.

O conselho da agência conta com José Luiz Alqueres, Paulo Ferraz, Maria Sílvia Bastos, e Julio Bueno. Há ainda um grupo de "observadores", outras pessoas de destaque na área de negócios.

A agência faz promoção comercial, serve como canal de facilitação de negócios, e fomenta a inteligência de negócios. Várias empresas de consultoria, como a IBM, a Booz-Allen, Price-Waterhouse, e McKinsey, têm ajudado nesse processo. A Booz-Allen fez um estudo sobre as vocações do Rio de Janeiro. São elas: energia, indústria criativa (como softwares, games e gastronomia), tecnologia, hospitalidade, seguros e resseguros, o setor financeiro, sobretudo asset management, e indústria em geral.

Na área de energia, o Rio de Janeiro atrai investimentos por conta de logística e suprimento de tecnologia. Surpreendentemente, a cidade concentra mais cursos ranqueados como top na área de tecnologia, do que qualquer outra cidade brasileira, inclusive São Paulo. Claro que esse ranking mudaria se Campinas fosse incluída junto com a capital paulista e sua região metropolitana.

Estamos em via de criar um "Vale de Energia", Haddad relatou. A região da Avenida Brasil, que decaiu a partir dos anos 80 com a desindustrialização, hoje ladeado de depósitos e fábricas vazios, pode abrigar muitos novos empreendimentos. De acordo com Haddad, a atual melhora na segurança da cidade contribui muito para esse processo. Há também uma sinergia entre os megaeventos globais e esses investimentos, pois o Rio assim cria uma "plataforma de marketing".

Com base nesses preceitos, a agência vende o Rio de Janeiro como local para negócios, com a vantagem de que quem vende sabe como pensam seus clientes, pois a equipe é oriunda da iniciativa privada. A agência ajuda os investidores a encontrarem locais e recursos financeiros para seus empreendimentos, e a assegurar a solidez jurídica. Entende das muitas barreiras aos negócios na cidade e no Brasil, e ajuda a contorná-las.

Números impressionantes

Nos quatorze meses de sua existência, a Agência Rio Negócios já conversou com 488 empresas. Delas, 158 estão com projetos de potencial sólido. "É um projeto em potencial a cada dia útil," disse Haddad. Até junho, a agência conseguiu R$ 1,8 bilhões de investimentos programados, o que representa cerca de 1.200 empregos de alto nível, com salários médios de quase dez mil reais.

O primeiro cliente foi a GE, que chegou com um investimento d R$ 400 milhões, para um projeto cuja pedra fundamental se ergue em março do ano que vem. Isso levará à contratação de 300 PhDs entre 2012 e 2013. O centro de pesquisas da GE, que irá atender à cadeia energética acima de tudo, deve criar um total de cinco mil empregos qualificados, disse Haddad.

Ele ressaltou que o Rio irá abrigar, até 2015, de quatro a cinco mil PhDs trabalhando no parque tecnológico da UFRJ, num terreno equivalente ao bairro de Leblon. Esse parque não engloba apenas empresas da área energética, mas também do setor de cosméticos e de computação.

Outros dados de tirar o fôlego:

Há crescimento e oportunidades de negócios nas áreas de imóveis, transportes, habitação, indústria em geral, e ciência e tecnologia. Até 2009, a cidade produzia apenas 30 mil metros quadrados anuais de metragem de escritórios. A taxa de vacância chegou a 0,6%. Com o retrofit de muitos prédios no centro, a vigor renovada de Flamengo, Botafogo e Barra, o Rio já produziu 350 mil m2 - equivalente à quantia disponível em São Paulo.

Na área de transportes, acontece o maior investimento no Brasil nos últimos vinte anos. Isso inclui os BRTs ou ligeirinhos, metrô, a renovação do Supervia, e a construção do Arco Metropolitano.

De acordo com Haddad, comunidades pobres passam por uma renovação habitacional. Provavelmente ele se referia à segunda fase do programa Morar Carioca, que está atrasado. A renovação informal que já acontece preocupa alguns observadores, que apontam o começo de um processo de gentrificação.

A Price Waterhouse fez um levantamento e constatou que os grandes eventos em si irão criar 90 mil empregos, 50 mil dos quais temporários, e de 30 a 35 mil permanentes. Teremos também por volta de R$ 55 bilhões de reais em investimentos, total.

Nos próximos dez a quinze anos, veremos um acréscimo de 70 a 80 mil empregos, com investimentos totalizando até R$ 80 bilhões em quinze anos.

Até 2014, O BNDES já mapeou seu envolvimento em R$ 614 bilhões de investimento estrangeiro, 84% dos quais no Rio de Janeiro, sobretudo nas áreas de óleo e gás, mineração, siderurgia, petroquímica, automóveis, e a indústria têxtil.

Debate de quase uma tecla só

Na hora do debate, o empresário Daniel Plá foi o primeiro a lançar o assunto de educação. Sugeriu a adoção gradual de tempo integral nas escolas cariocas, começando com a primeira série, possivelmente com a ajuda do setor privado.

Atualmente, todo mundo no Rio de Janeiro sente falta de mão de obra, de qualquer nível. Nos anos de crise muitos cariocas de mestrado ou PhD se exilaram do Rio, e agora muitos estão retornando- tanto que André Urani cogita um OsteRio sobre o tal brain gain. E ainda chegam dois mil estrangeiros por mês para trabalhar no Brasil, acima de tudo no Rio de Janeiro, ele lembrou.

Apesar disso, os participantes deste debate se mostravam muito preocupados. Como oferecer uma educação mais criativa, mais prática, mais ousada em termos de investimento, e mais empreendedora? Como preparar os jovens para uma economia criativa, sustentável? As perguntas pipocavam.

Luiz Edmundo Costa Leite, Secretário Estadual de Ciência e Tecnologia e professor de engenharia no Fundão, confirmou a existência de muitos centros de pesquisa no Rio. Mas queria saber como os jovens do Rio podem aproveitar desse momento. Mencionou que na cidade interiorana de São João da Barra, a prefeita criou um curso gratuito de mandarim, que já formou 180 alunos. Comentou que, enquanto durante anos o curso de engenharia da UFRJ sofria com uma evasão de 50% do primeiro até o último período, agora acontece o inverso - uma invasão de alunos de outros cursos e outros estados. "Mas ainda não é suficiente," emendou, acrescentando que nem o Sistema S deve suprir as necessidades dos novos negócios no Rio de Janeiro.

Monteiro de Carvalho e Haddad compartilharam as preocupações dos presentes, porém deixaram claro que a educação não é competência direta da Agência Rio Negócios. Mesmo assim, a agência transmite regularmente as preocupações dos empresários ao prefeito. Monteiro de Carvalho acredita que o prefeito tem o dinheiro e gente competente para a educação, como Claudia Costin no cargo de Secretária Municipal. O estado, idem, com o novo secretário Wilson Risolia, que identificou a gestão como seu foco principal no momento.

Haddad completou a resposta de Monteiro de Carvalho, dizendo que o trabalho de Claudia Costin é de longo prazo. "No dia 19 setembro de 2008, ninguém imaginava que o Rio de Janeiro receberia uma Olimpíada, que teria tal demanda ," ele disse. "O que aconteceu nesses três anos é revolucionário. Na educação temos hoje o inglês como segunda língua em todas as escolas municipais. São 150 de 750 Escolas do Amanhã, tempo integral. Isso começou há três anos, e está se desdobrando em outro universo," ele completou. De acordo com ele, nos próximos sete anos a UFRJ vai expandir, de 45 mil vagas de aluno para 80 mil. E escolas internacionais, da estirpe de Columbia University e a Texas A and M entram frequentemente em contato com a agência, querendo se estabelecer aqui ou com interesse em oferecer capacitação para empregos no estado.

Se a Agência Rio Negócios não estava ciente das questões educacionais ligadas ao desenvolvimento empresarial no Brasil, o recado certamente foi dado na 48º OsteRio. Mas todos sabem que na verdade, o assunto não é novo. Haddad lembrou que apesar de a falta de mão de obra adequada ser um empecilho aos negócios, muitas empresas fazem capacitação. E, disse ele, a PriceWaterhouse está para terminar uma pesquisa sobre as necessidades técnicas empresariais em todo o Brasil, com enfoque no Rio de Janeiro. O resultado levará a uma maior integração entre os negócios e as escolas e universidades, de acordo com Haddad.