Eventos

55º OsteRio

Osteria dell’Angolo

Futebol e política andam sempre de mãos dadas. Não existe político brasileiro que não mencione futebol numa reunião, discurso ou debate. Assim é que as bases de um relacionamento se constroem.

E no futebol existe uma grande dosagem de política. Podia-se dizer até que o futebol brasileiro espelha o que há de pior na política do país. Feudos, favores e, na hora em que a mudança se demonstra necessária, pés de chumbo.

Conforme os debatedores do 55º OsteRio, os maiores obstáculos à modernização do futebol carioca são federações de mentalidade atrasada, uma Confederação arcaica e feudal, dirigentes sem interesse na profissionalização, o monopólio da TV Globo, a falta de gestão das "marcas" que os times representam, e a subutilização de estádios.
Inacreditavelmente, o conselho de deliberação do Flamengo, por exemplo, conta com 1.500 pessoas. O conselho de administração tem cem integrantes, e o conselho fiscal, meros quatorze.

De acordo com dados de balanço financeiro de 2010 apresentados pelo flamenguista, economista e ex-diretor do BNDES Wallim Vasconcelos, os quatro times cariocas estão no vermelho:

Botafogo R$ 314 milhões negativos
Vasco R$ 264 milhões negativos
Flamengo R$ 100 milhões negativos, sendo que todos os dados ainda não foram disponibilizados
Fluminense entre R$ 35 e 100 milhões negativos

Nem tudo é derrota. É sinal de tempos novos a conversa clara e concisa que houve sobre as dificuldades, nesse debate do OsteRio. Ao passo que a metrópole enfrenta as suas questões mais insidiosas, várias peças do quebra-cabeça geral se mexem. De repente, é possível reavaliar, sonhar e partir para reformas no futebol também.

O Botafogo da economista e advogada Elena Landau já mostra o caminho. Desde 1998, fala-se em profissionalização. Houve uma tentativa inicial em 2003, mas apenas em 2009 é que as reformas começaram de fato. Apesar de existirem muitos desafios externos, diz a Elena que é preciso trabalhar de dentro para fora. Assim, o Botafogo deixou de lado a gestão amadora de presidentes e vice-presidentes de clube, e contratou profissionais de mercado. Diversificou a captação de recursos, reduziu despesas, e otimizou receitas. Melhorou a administração do estádio Engenhão, saindo de um prejuízo de R$ 2 milhões por ano pela sua utilização (para filmagens, gravações e eventos) para uma receita de R$ 8 milhões.

"Passamos onze anos sem ser campeão," Elena contou. "Hoje temos mais de quarenta atletas contratados. Tem que criar riqueza através de jogador. Na Europa você capta recursos de investimento. Aqui, não. Existem incentivos fiscais, o time é uma entidade sem fins lucrativos. O modelo brasileiro não serve."

Aqui, ela acrescentou, já que a receita de estádios e merchandising é pouca, existe uma dependência grande em recursos provenientes da televisão. E Ricardo Teixeira usava a TV para se vingar dos clubes, mudando dias e horários de jogo conforme seus caprichos. Hoje, ela finalizou, os clubes devem aproveitar o momento da queda dele para melhorar sua representação na CBF.

A profissionalização é inevitável, comentou o Wallim, depois de propor, meio de brincadeira, a candidatura da Elena para a presidência da CBF.

No BNDES, o Wallim assistiu ao mesmo fenômeno. "A realidade levou as empresas a competir e se profissionalizar. Quem não fez isso morreu." A gestão, e mais precisamente, a credibilidade do gestor, é primordial, ele aconselhou. "Mesmo tendo dívidas, você tendo gestão resolve o problema da dívida." Ainda por cima, futebol é um produto que conta com consumidores altamente fidelizados, a despeito de decepções.

Houve consenso em torno da ideia de criar ligas, de os clubes se unirem para mudar o quadro; e de que é preciso abrir as portas dos clubes para sangue novo, tanto o de sócios/torcedores como de jogadores e outros talentos. O Wallim também sugeriu que os clubes criassem núcleos em favelas do Rio, o que seria uma maneira de participar da integração que acontece na cidade. "Acesse www.sociospeloflamengo.com.br e se junte a nós," ele incentivou.

Na hora de descrever o cardápio especial para os frequentadores do OsteRio, o sócio da Osteria dell’Angolo, Alessandro, revelou ser torcedor do Internazionale de Milano (que não está tão bem). Diz ele que na Itália os sócios que não pagam mensalidades de clubes; os torcedores compram assinaturas para o ano todo de jogos, o que cria grande receita para os clubes.

Uma chacoalhada na Federação foi uma sugestão de Julio Bueno, tricolor e Secretário Estadual de Desenvolvimento Econômico. "A Federação deveria promover futebol no Rio de Janeiro," ele disse. "E o presidente da Federação deveria ser uma pessoa como Marcelo Haddad, da [agência municipal promotora de investimentos no Rio de Janeiro] Rio Negócios." De acordo com Julio, seria possível reformar as estruturas externas aos clubes com o apoio dos prefeitos das muitas cidades no estado do Rio. Em 2009, no colégio eleitoral da Federação de clubes de futebol do estado, a maior parte dos 356 votos pertencia a prefeitos de pequenos municípios.

O Vasco, de acordo com Carlos Roberto Osório, Secretário Municipal de Conservação Pública, foi o primeiro time a se profissionalizar, há quase cem anos. Mesmo assim, sofre das mesmas mazelas que afligem os outros grandes clubes cariocas. "Estamos em um momento intermediário," disse ele. Em 2008 o time sofreu uma intervenção na gestão de Eurico Miranda. Falta muito para se profissionalizar, mas a torcida está se renovando, o que contribui para o processo.

A questão dos estádios Engenhão e Maracanã ocupou grande parte do debate geral. O Engenhão foi construído para atender aos Jogos Panamericanos de 2007, durante o mandato do prefeito César Maia. O projeto original, explicou o secretário Osório, incluía a reurbanização e "arejamento" do entorno- mas essa parte não foi cumprida. Portanto, falta infraestrutura complementar, sobretudo de transporte e estacionamento.

Christopher Gaffney, geógrafo e pesquisador na área dos impactos sociais e urbanos de eventos esportivos, criticou a destruição do Maracanã, sendo patrimônio nacional. Elena Landau sustentou que o estádio precisava de uma reforma de estaca zero por ser "um desastre, velho, antigo", citando o exemplo de Wembley, na Inglaterra, como uma bem-sucedida reforma de alcance semelhante.

Quando o Maracanã fechou em 2010, o Engenhão, casa do Botafogo, virou um eixo central do futebol carioca-e o Botafogo aproveitou. De acordo com Elena, o clube abriu o estádio para shows, os Jogos Militares e outros eventos, além da locação de camarotes. De R$ 200 mil em 2008, o clube passou a ganhar R$ 4,3 milhões pela utilização do estádio fora jogos de futebol em si. Isso, diz ela, não deve mudar muito com a reabertura do Maracanã, pois o Botafogo aprendeu a ganhar com tal profissionalização.

Para a reabertura do Maracanã, que seria privatizado, de acordo com o Julio, os quatro clubes cariocas devem ser chamados para participar de alguma forma da administração e uso.

No meio tempo, acrescentou o Osório, a prefeitura pretende completar o projeto do Engenhão, como parte dos preparativos para os Jogos Olímpicos.

Há muito trabalho pela frente, inclusive, como lembrou o Wallim, um código de conduta para os jogadores. E enquanto o entorno do Engenhão continuar do jeito que está, a prefeitura talvez possa mudar algumas regras de trânsito. Assim, a noite terminou com um gentil convite de parte do tricolor ao vascaíno, para assistir a um jogo próximo...